
O conceito de integridade empresarial no Brasil acaba de passar por uma de suas transformações mais relevantes desde a criação da Lei Anticorrupção. A atualização do Programa Empresa Pró-Ética, conduzido pela Controladoria-Geral da União, deixa claro que prevenir corrupção já não é suficiente para sustentar credibilidade, reputação e competitividade no mercado. A partir desta edição, igualdade, diversidade, direitos humanos e sustentabilidade passam a integrar oficialmente os critérios de avaliação das empresas participantes.
Esse movimento não surge de forma isolada. Ele reflete uma mudança estrutural na forma como reguladores, investidores e a sociedade avaliam organizações. Integridade deixa de ser apenas um conjunto de controles voltados à conformidade legal e passa a ser compreendida como um sistema amplo de governança, comportamento organizacional e impacto social.
Para gestores, CEOs e donos de empresa, o recado é direto: programas de compliance que permanecem restritos a políticas anticorrupção correm o risco de se tornarem tecnicamente corretos, porém estrategicamente irrelevantes. O Programa da CGU inaugura um novo patamar de maturidade ao formalizar critérios que já vinham sendo exigidos, ainda que de maneira difusa, pelo mercado.
A evolução do Programa da CGU e o novo conceito de integridade empresarial
Instituído em 2010, o Programa Empresa Pró-Ética foi criado com o objetivo de reconhecer empresas comprometidas com a prevenção e o combate à corrupção. Durante mais de uma década, o foco esteve concentrado na existência e na efetividade dos programas de integridade, com ênfase em políticas, controles internos, canal de denúncias e investigações.
A nova edição do programa representa uma ampliação significativa desse escopo. A CGU passa a avaliar também o compromisso das empresas com direitos humanos, responsabilidade socioambiental, diversidade e inclusão, consolidando uma visão mais contemporânea de ética corporativa. Esse avanço integra as ações do Plano de Integridade e Combate à Corrupção, iniciado em 2025 e com conclusão prevista para 2027.
Segundo a diretora de integridade privada da CGU, Cristine Ganzenmüller, o Pró-Ética assume agora um papel mais abrangente ao incentivar modelos de negócios sustentáveis, com atenção aos impactos ambientais, sociais e às relações em toda a cadeia de valor. A declaração reforça que a cultura de integridade precisa ser ampla e duradoura, indo além do cumprimento formal da legislação.
Esse reposicionamento aproxima o Brasil de práticas internacionais já consolidadas, nas quais integridade, sustentabilidade e governança são avaliadas de forma integrada, especialmente em ambientes de alta exposição regulatória e reputacional.
Igualdade e sustentabilidade entram no radar do compliance corporativo
A inclusão de critérios de igualdade, diversidade e sustentabilidade no Programa da CGU altera de forma significativa o desenho dos programas de compliance. Temas que antes apareciam de maneira periférica ou dissociada passam a integrar oficialmente a avaliação de integridade empresarial.
Na prática, isso significa que políticas de diversidade sem efetividade, iniciativas ambientais desconectadas da operação ou discursos institucionais não sustentados por práticas reais deixam de ser suficientes. A CGU passa a olhar para a coerência entre discurso, estratégia e comportamento organizacional.
Esse movimento dialoga diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e com diretrizes internacionais de governança corporativa. Não por acaso, o Programa Empresa Pró-Ética já foi reconhecido como boa prática pela Organização dos Estados Americanos, como esforço positivo pela OCDE e como referência pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.
Empresas brasileiras que já vinham investindo em programas integrados de compliance e ESG tendem a se beneficiar desse novo cenário. Por outro lado, organizações que mantêm estruturas fragmentadas enfrentam agora o desafio de integrar áreas, processos e decisões sob uma mesma lógica de integridade.
Conheça mais sobre os novos critérios de avaliação no site oficial da CGU aqui.
O processo de avaliação do Pró-Ética e seus impactos práticos
A adesão ao Programa Empresa Pró-Ética permanece voluntária e gratuita, mas o processo de avaliação é rigoroso. As empresas passam por uma análise conduzida pelo Sistema de Avaliação e Monitoramento de Programas de Integridade, o SAMPI, ferramenta desenvolvida pela própria CGU.
Por meio do SAMPI, as organizações precisam preencher formulários detalhados e apresentar documentos comprobatórios que demonstrem a efetiva implementação de seus mecanismos de integridade. A avaliação é técnica, padronizada, sigilosa e imparcial, o que confere credibilidade ao processo.
Nesta rodada, 202 empresas foram admitidas para a fase de avaliação após a análise de admissibilidade. O resultado final será divulgado em maio de 2026. Na edição anterior, referente ao ciclo 2022-2023, 254 empresas participaram do processo, e apenas 84 obtiveram aprovação, o que evidencia o nível de exigência do programa.
Além do reconhecimento público, as empresas participantes recebem um relatório técnico individualizado, contendo análises detalhadas e recomendações para o aprimoramento contínuo de seus programas de integridade. Esse retorno técnico é, por si só, um instrumento relevante de gestão e governança.
Por que o novo Programa da CGU muda a estratégia das empresas
A ampliação dos critérios do Pró-Ética altera a lógica estratégica do compliance corporativo. O foco deixa de ser exclusivamente a mitigação de riscos legais e passa a incluir a gestão de riscos sociais, humanos e ambientais como parte da integridade do negócio.
Empresas envolvidas em escândalos recentes demonstraram que falhas em diversidade, assédio, governança ambiental e direitos humanos geram impactos tão severos quanto práticas corruptas tradicionais. Perda de contratos, queda de valor de mercado, dificuldades de financiamento e desgaste institucional passaram a ser consequências recorrentes.
Nesse contexto, o compliance assume um papel mais estratégico. Ele deixa de atuar apenas como guardião de normas e passa a contribuir para decisões estruturais, desenho de políticas internas, relacionamento com terceiros e posicionamento institucional.
Para CEOs e conselhos de administração, o Programa da CGU funciona como um termômetro de maturidade. Ele sinaliza quais práticas são esperadas de empresas que desejam operar de forma sustentável, ética e competitiva no médio e longo prazo.
Compliance moderno e o desafio da integridade aplicada à realidade
A atualização do Programa Empresa Pró-Ética deixa claro que integridade não é um conceito estático. Ela evolui conforme a sociedade, o mercado e o ambiente regulatório se transformam. Programas de compliance que não acompanham essa evolução tendem a perder relevância.
O alerta para profissionais da área é direto. Não basta ter políticas bem escritas ou controles formalmente implementados. É necessário demonstrar coerência entre valores, decisões e impactos reais. A cultura organizacional passa a ser elemento central da avaliação de integridade.
Ao reconhecer empresas que integram prevenção à corrupção, igualdade, sustentabilidade e respeito aos direitos humanos, a CGU reforça uma mensagem clara ao mercado: ética corporativa se mede pelo comportamento organizacional e pelas escolhas estratégicas, não apenas pelo cumprimento mínimo de requisitos legais.
Compliance moderno é, cada vez mais, integridade aplicada à realidade. O Programa da CGU consolida essa visão e posiciona o Brasil como referência internacional em práticas de avaliação ética empresarial.


